Porque pensar fora da caixa?

A mentalidade da enganação: como mudar sua própria mente

Uma prática simples para aumentar a inteligência, evitar tendências cognitivas e provar que suas próprias ideias estão erradas.


Em meados do século XX, o filósofo e professor Karl Popper se viu mistificado pelas crenças e métodos das pessoas inteligentes e racionais que o cercavam.

“Descobri que os meus amigos que eram admiradores de Marx, Freud e Adler ficaram impressionados com uma série de pontos comuns a essas teorias e, especialmente, por seu aparente poder explicativo. Essas teorias parecem ser capazes de explicar praticamente tudo o que aconteceu nos campos a que se referiam. Uma vez que seus olhos se abriam, era possível ver confirmações em todos os lugares: o mundo estava cheio de verificações da teoria. O que aconteceu sempre confirmou isso.”

Essa última frase deve acender uma luz para muitos de nós – ela é uma descrição muito simples da ‘tendência de confirmação’. Funciona assim: quando você incorpora uma nova forma de pensar ou teoria, você tende a interpretar tudo como confirmando essa forma de pensar. O que quer que pareça contradizer, é deixado de lado ou, de alguma forma, contorcido para se adequar às nossas crenças.

Popper viu esse problema inerente a muitas teorias – tanto nas ciências físicas e sociais, quanto em outras esferas também. Afinal, se encontrarmos evidências que parecem contradizer nossas crenças, deveríamos parar para ver se talvez precisamos abandonar ou modificar nossa crença.

Como forma de curar esse mal das teorias e sistemas de crença autoconfirmados, ele criou o que hoje é chamado de ‘falsificacionismo’: a ideia de que uma teoria ou sistema de crenças só podem ser científicos quando definido claramente que evidência específica provaria estar errada.

De forma resumida, se você vai alegar que sabe alguma coisa, você tem que estar disposto a admitir que você pode estar errado sobre essa coisa. Mais do que isso, você tem que expor que tipo de evidência provaria que você está errado. Você tem que se tornar ‘falseável’.
 

Por que a falsificação é importante?

A contribuição do pensamento de Popper pode nos ajudar a nos tornarmos mais inteligentes e a tomarmos melhores decisões – tanto no campo profissional quanto no pessoal. Adotar uma atitude de falseabilidade gera algumas coisas importantes:

Ajuda-o a evitar muitos preconceitos cognitivos que podem impedir o crescimento intelectual e a boa tomada de decisões
Isso faz de você um pensador mais claro, forçando você a ser específico sobre o que você acha que sabe, e que provas você tem
E estimula seu pensamento criativo, tornando-o naturalmente mais receptivo a novas ideias e ajudando você a processá-las mais rapidamente

Nossas mentes tendem a buscar a segurança e o conforto. Isso vale tanto para a segurança física e o conforto material como também para nosso senso de certeza e segurança intelectual. Se nos sentimos como se soubéssemos de alguma coisa com certeza – como se tivéssemos uma firme compreensão disso –, queremos nos apegar a esse sentimento.

Como queremos manter esse sentimento, tendemos a fabricar certezas, impedindo a busca de novas informações (com medo de pôr em risco nossa sensação de certeza) ou interpretando novas informações de uma forma que continue apoiando nosso sentimento de certeza.

Essas práticas reprimem o pensamento criativo, o crescimento intelectual e o crescimento pessoal. Veja como pensar em termos de ‘falsificação’ pode ajudá-lo a evitar essa armadilha.
 

Colocando a mentalidade de falsificação em ação

A mentalidade de falseabilidade está relacionada com o pensar através das implicações das crenças, julgamentos e decisões. É sobre inibir sua ânsia por certeza. Adotar essa mentalidade é tão fácil quanto realizar uma prática simples.

Faça o seguinte: quando você estiver prestes a tomar uma decisão pegue uma folha de papel e desenhe uma linha no meio.

Do lado esquerdo, escreva no alto o que você acredita ser verdade.

Do lado direito, escreva no alto “O que provaria que estou errado”.

O lado esquerdo pode ser qualquer coisa. Pode ser algo pessoal e de baixo risco, como se você precisasse comprar o novo celular ou algo mais substancial, como “o aquecimento global é o resultado do desperdício industrial humano interagindo com a atmosfera”.

O lado direito é onde você terá que pensar um pouco. E é aí que essa prática pode gerar dividendos. Entender o que provaria que você está errado força você a fazer três coisas importantes:

  • Esclarecer o que sua crença real é
  • Confrontar a possibilidade de você estar errado e
  • Encorajar você a se comprometer em mudar seus pensamentos sob algumas condições específicas
     

Analisando um caso de tomada de decisão

Imagine uma situação onde um homem tem a crença de que, para ser profissionalmente realizado, precisa ser um professor de filosofia.

Imagine também que essa pessoa tem 30 anos, é casado, paga aluguel, tem dívidas e acaba de descobrir que será pai. Além disso tem um emprego que toma quase 12 horas do seu dia entre locomoção e horas de trabalho.

Se esse homem seguir suas crenças e decidir se tornar um professor de filosofia, terá que se especializar e fazer um mestrado e, possivelmente, um doutorado. Esses cursos tomariam aproximadamente quatro anos de sua vida e um investimento considerável em tempo, dinheiro e desgaste familiar.

Além disso teria que lutar depois para viver com o salário de um professor que, infelizmente, não é lá essas coisas no Brasil.

Por outro lado, esse homem tem hoje uma situação promissora em seu emprego. Foi promovido duas vezes nos últimos dois anos e seu salário garante o sustento da família e uma boa qualidade de vida.

Entrar em um mestrado e virar professor de filosofia faria com que tivesse que abandonar esse emprego, colocando em risco a renda e o convívio familiar.

Ciente da maioria desses fatos, esse homem fez o que Popper descreveu: manipulou sua crença para evitar a gravidade do novo cenário.

O que o faria repensar essa meta profissional?

Ele pegou um pedaço de papel, traçou uma linha no meio e, de um lado, escreveu sua crença:

“Para me sentir profissionalmente completo, preciso me dedicar a carreira acadêmica, fazer um mestrado e um doutorado, largar meu emprego e readaptar minha vida com minha família.”

Do outro lado, escreveu: o que provaria que estou errado?

A resposta mais simples para essa pergunta foi a que ele estaria errado se pudesse trabalhar em algo que o fizesse feliz sem mudar sua vida atual tendo que ingressar em um programa de mestrado e doutorado.

Ainda preso as suas crenças, esse homem poderia pensar que isso seria impossível de acontecer.

Então ele decidiu ‘pensar fora da caixa’ e tentar provar para ele mesmo que estava errado, procurando formas disso acontecer, por mais malucas que pudessem parecer.

Ele pegou o papel e se forçou em buscar evidências e possibilidades que contradissessem o que ele acreditava tão firmemente.

Seria possível se sentir feliz trabalhando em qualquer outra coisa além da carreira de professor de filosofia que era o sonho dele?

Ele escreveu as seguintes possibilidades que estavam relacionadas com as atividades que o atraíam para ser um professor:

  • Pensar e escrever sobre as grandes e interessantes questões da vida
  • Ensinar os outros a fazer o mesmo
  • Ler coisas interessantes e instigantes

Havia alguma maneira de fazer essas coisas sem sair do emprego, se dedicar a 4 ou 5 anos de estudo e sem viver a incerteza caótica do mercado de trabalho acadêmico?

A resposta parecia ser sim.

Ele poderia escrever na internet sobre tópicos relacionados a área de filosofia.

Poderia trabalhar com coaching on-line e ministrar cursos pela internet.

Poderia ler e escrever sobre as coisas interessantes que sempre gostou, além de desenvolver cursos e ensinar outras pessoas. E poderia fazer isso sem largar a fonte confiável de renda e mudar o padrão de vida da família.

Esse homem começou com uma certeza ardente de sua crença. Mas resolveu desafiar essa crença perguntando o que precisaria ser verdade para que ela estivesse errada. Uma vez que escreveu essas verdades, ele se comprometeu a mudar a crença inicial se uma determinada condição fosse satisfeita.

Investigando o que tornaria falsa a crença que ele tinha, e se essas condições já existiam, ele foi capaz de romper com um padrão de pensamento e se abrir para novas possibilidades.

Como você pode adotar uma mentalidade de falsificação

Adotar a mentalidade de falsificação é simples. Como qualquer exercício de pensamento, ajuda se você escrever, mas isso não é totalmente necessário.

Para qualquer crença que você tenha, pergunte o que seria necessário para você mudar de ideia
Seja específico sobre que evidência faria você mudar de ideia
Procure essa evidência e esteja disposto a mudar sua crença se você a encontrar

Esse exercício pode ser um divisor de águas para decisões importantes em sua vida. Mas também funcionará para crenças e julgamentos menores.

Apenas pergunte a si mesmo como você poderia provar que está errado – sobre qualquer crença antiga que tenha. Você está pensando em fazer uma compra de alto valor? Em caso afirmativo, qual descoberta faria com que você cancelasse essa compra? Você está trabalhando para um objetivo profissional? Em caso afirmativo, que novos fatos ou experiências o convenceriam de que esse é o objetivo errado?

Todos nós temos muitos preconceitos ocultos que podem ser examinados dessa maneira.

Se você adotar essa maneira de analisar as coisas, será capaz de ver que sua atitude mudará – você terá uma mente mais aberta e ficará menos propenso a ignorar outras pessoas ou outras fontes de informação. E ao fazê-lo, você colherá vários benefícios.

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